Terça-feira, 25 de Março de 2008

A Última Mensagem de John Stott em Keswick - Parte 1


Segue abaixo, após uma introdução de Leighton Ford, a última mensagem de um dos maiores teólogos contemporâneos, Dr. John Stott, no celebrado e tradicional evento cristão em Keswick, na Inglaterra.

Encontrei no site do Caio Fábio essa excelente mensagem e compartilho com você...
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Introdução: Leighton Ford

Tenho uma admiração ilimitada por John Stott, como professor, pregador e líder, e como alguém de quem me alegro por poder chamar de amigo. John Stott, hoje com cerca de 85 anos, vive em uma casa de repouso no sul da Inglaterra. Contudo, sua mensagem continua clara. Segue a mensagem (Tornando-nos Semelhantes a Cristo) que ele trouxe nesse verão, na convenção de Keswick, na Inglaterra. O estilo e o conteúdo são típicos de Stott: bíblicos, reflexivos, desafiadores. Vale a pena ler e reler!

Leighton
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Mensagem de John Stott em Keswick

Dr. John Stott — “O Paradigma: Tornando-nos Mais Semelhantes a Cristo”. Sermão pregado na Convenção de Keswick em 17 de julho de 2007

Lembro-me muito claramente de que há vários anos, sendo um cristão ainda jovem, a questão que me causava perplexidade (e a alguns amigos meus também) era esta: Qual é o propósito de Deus para o seu povo? Uma vez que tenhamos nos convertido, uma vez que tenhamos sido salvos e recebido vida nova em Jesus Cristo, o que vem depois? É claro que conhecíamos a famosa declaração do Breve Catecismo de Westminster: “O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre”. Sabíamos disso e críamos nisso. Também refletíamos sobre algumas declarações mais breves, como uma de apenas sete palavras: “Ama a Deus e ao teu próximo”. Mas de algum modo, nenhuma delas, nem outra que pudéssemos citar, parecia plenamente satisfatória. Portanto, quero compartilhar com vocês o entendimento que pacificou minha mente à medida que me aproximo do final de minha peregrinação neste mundo. Esse entendimento é: Deus quer que seu povo se torne semelhante a Cristo. A vontade de Deus para o seu povo é que sejamos conformes à imagem de Cristo.
Sendo isso verdade, quero propor o seguinte: em primeiro lugar, demonstrarmos a base bíblica do chamado para sermos conformes à imagem de Cristo; em segundo, extrairmos do Novo Testamento alguns exemplos; em terceiro, tirarmos algumas conclusões práticas a respeito. Tudo isso relacionado a nos assemelharmos a Cristo.

Então, vejamos primeiro a base bíblica do chamado para sermos semelhantes a Cristo. Essa base não se limita a uma passagem só. Seu conteúdo é substancial demais para ser encapsulado em um único texto. De fato, essa base consiste de três textos, os quais, aliás, faríamos muito bem em incorporar conjuntamente à nossa vida e visão cristã: Romanos 8:29, 2 Coríntios 3:18 e 1 João 3:2. Vamos fazer uma breve análise deles.

Romanos 8:29 diz que Deus predestinou seu povo para ser conforme à imagem do Filho, ou seja, tornar-se semelhante a Jesus. Todos sabemos que Adão, ao cair, perdeu muito — mas não tudo — da imagem divina conforme a qual fora criado. Deus, todavia, a restaurou em Cristo. Conformar-se à imagem de Deus significa tornar-se semelhante a Jesus: O propósito eterno de predestinação divina para nós é tornar-nos conformes à imagem de Cristo.

O segundo texto é 2 Coríntios 3:18: “E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito”. Portanto é pelo próprio Espírito que habita em nós que somos transformados de glória em glória — que visão magnífica! Nesta segunda etapa do processo de conformação à imagem de Cristo, percebemos que a perspectiva muda do passado para o presente, da predestinação eterna de Deus para a transformação que ele opera em nós agora pelo Espírito Santo. O propósito eterno da predestinação divina de nos tornar como Cristo avança, tornando-se a obra histórica de Deus em nós para nos transformar, por intermédio do Espírito Santo, segundo a imagem de Jesus.

A Última Mensagem de John Stott em Ketwick - Parte 2


Isso nos leva ao terceiro texto: 1 João 3:2: “Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é”. Não sabemos em detalhes como seremos no último dia, mas o que de fato sabemos é que seremos semelhantes a Cristo. Não precisamos saber de mais nada além disso. Contentamo-nos em conhecer a verdade maravilhosa de que estaremos com Cristo e seremos semelhantes a ele, eternamente.

Aqui há três perspectivas: passado, presente e futuro. Todas apontam na mesma direção: há o propósito eterno de Deus, pelo qual fomos predestinados; há o propósito histórico de Deus, pelo qual estamos sendo transformados pelo Espírito Santo; e há o propósito final ou escatológico de Deus, pelo qual seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é. Estes três propósitos — o eterno, o histórico e o escatológico — se unem e apontam para um mesmo objetivo: a conformação do homem à imagem de Cristo. Este, afirmo, é o propósito de Deus para o seu povo. E a base bíblica para nos tornarmos semelhantes a Cristo é o fato de que este é o propósito de Deus para o seu povo.

Prosseguindo, quero ilustrar essa verdade com alguns exemplos do Novo Testamento. Em primeiro lugar, creio ser importante que nós façamos uma afirmação abrangente como a do apóstolo João em 1 João 2:6: “Aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou”. Em outras palavras, se nos dizemos cristãos, temos de ser semelhantes a Cristo. Este é o primeiro exemplo do Novo Testamento: temos de ser como o Cristo Encarnado.

Alguns de vocês podem ficar horrorizados com essa idéia e rechaçá-la de imediato. “Ora”, me dirão, “não é óbvio que a Encarnação foi um evento absolutamente único, não sendo possível reproduzi-lo de modo algum?” Minha resposta é sim e não. Sim, foi único no sentido de que o Filho de Deus revestiu-se da nossa humanidade em Jesus de Nazaré, uma só vez e para sempre, o que jamais se repetirá. Isso é verdade. Contudo, há outro sentido no qual a Encarnação não foi um evento único: a maravilhosa graça de Deus manifestada na Encarnação de Cristo deve ser imitada por todos nós. Nesse sentido, a Encarnação não foi única, exclusiva, mas universal. Somos todos chamados a seguir o supremo exemplo de humildade que ele nos deu ao descer dos céus para a terra. Por isso Paulo diz em Filipenses 2:5-8: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz”. Precisamos ser semelhantes a Cristo em sua Encarnação no que diz respeito à sua admirável humildade, uma humilhação auto-imposta que está por trás da Encarnação.

Em segundo lugar, precisamos ser semelhantes a Cristo em sua prontidão em servir. Agora, passemos de sua Encarnação à sua vida de serviço; de seu nascimento à sua vida; do início ao fim. Quero convidá-los a subir comigo ao cenáculo onde Jesus passou sua última noite com os discípulos, conforme vemos no evangelho de João, capítulo 13: “Tirou a vestimenta de cima e, tomando uma toalha, cingiu-se com ela. Depois, deitou água na bacia e passou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido”. Ao terminar, retomou seu lugar e disse-lhes: “Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo” — note-se a palavra — “para que, como eu vos fiz, façais vós também”.

Há cristãos que interpretam literalmente esse mandamento de Jesus e fazem a cerimônia do lava-pés em dia de Ceia do Senhor ou na Quinta-feira Santa — e podem até estar certos em fazê-lo. Porém, vejo que a maioria de nós fez apenas uma transposição cultural do mandamento de Jesus: aquilo que Jesus fez, que em sua cultura era função de um escravo, nós reproduzimos em nossa cultura sem levarmos em conta que nada há de humilhante ou degradante em o fazermos uns pelos outros.

Em terceiro lugar, temos de ser semelhantes a Cristo em seu amor. Isso me lembra especificamente Efésios 5:2: “Andai em amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave”. Observe que o texto se divide em duas partes. A primeira fala de andarmos em amor, um mandamento no sentido de que toda a nossa conduta seja caracterizada pelo amor, mas a segunda parte do versículo diz que ele se entregou a si mesmo por nós, descrevendo não uma ação contínua, mas um aoristo, um tempo verbal passado, fazendo uma clara alusão à cruz. Paulo está nos conclamando a sermos semelhantes a Cristo em sua morte, a amarmos com o mesmo amor que, no Calvário, altruistamente se doa.

Observe a idéia que aqui se desenvolve: Paulo está nos instando a sermos semelhantes a Cristo na Encarnação, ao Cristo que lava os pés dos irmãos e ao Cristo crucificado. Esses três acontecimentos na vida de Cristo nos mostram claramente o que significa, na prática, sermos conformes à imagem de Cristo.

Em quarto lugar, temos de ser semelhantes a Cristo em sua abnegação paciente. No exemplo a seguir, consideraremos não o ensino de Paulo, mas o de Pedro. Cada capítulo da primeira carta de Pedro diz algo sobre sofrermos como Cristo, pois a carta tem como pano de fundo histórico o início da perseguição. Especialmente no capítulo 2 de 1 Pedro, os escravos cristãos são instados a, se castigados injustamente, suportarem e não retribuírem o mal com o mal. E Pedro prossegue dizendo que para isto mesmo fomos chamados, pois Cristo também sofreu, deixando-nos o exemplo — outra vez a mesma palavra — para seguirmos os seus passos. Este chamado para sermos semelhantes a Cristo em meio ao sofrimento injusto pode perfeitamente se tornar cada vez mais significativo à medida que as perseguições se avolumam em muitas culturas do mundo atual.

No quinto e último exemplo que quero extrair do Novo Testamento, precisamos ser semelhantes a Cristo em sua missão. Tendo examinado os ensinos de Paulo e de Pedro, veremos agora os ensinos de Jesus registrados por João. Em João 17:18, Jesus, orando, diz: “Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo”, referindo-se a nós. E na Comissão, em João 20:21, Jesus diz: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio”. Estas palavras carregam um significado imensamente importante. Não se trata apenas da versão joanina da Grande Comissão; é também uma instrução no sentido de que a missão dos discípulos no mundo deveria ser semelhante à do próprio Cristo. Em que aspecto? Nestes textos, as palavras-chave são “envio ao mundo”. Do mesmo modo como Cristo entrou em nosso mundo, nós também devemos entrar no “mundo” das outras pessoas. É como explicou, com muita propriedade, o Arcebispo Michael Ramsey há alguns anos: “Somente à medida que sairmos e nos colocarmos, com compaixão amorosa, do lado de dentro das dúvidas do duvidoso, das indagações do indagador e da solidão do que se perdeu no caminho é que poderemos afirmar e recomendar a fé que professamos”.

A Última Mensagem de John Stott em Keswick - Parte 3


Quando falamos em “evangelização encarnacional” é exatamente disto que falamos: entrar no mundo do outro. Toda missão genuína é uma missão encarnacional. Temos de ser semelhantes a Cristo em sua missão. Estas são as cinco principais formas de sermos conformes à imagem de Cristo: em sua Encarnação, em seu serviço, em seu amor, em sua abnegação paciente e em sua missão.

Quero, de modo bem sucinto, falar de três conseqüências práticas da assemelhação a Cristo.

Primeira: A assemelhação a Cristo e o sofrimento. Por si só, o tema do sofrimento é bem complexo, e os cristãos tentam compreendê-lo de variados pontos de vista. Um deles se sobressai: aquele segundo o qual o sofrimento faz parte do processo da transformação que Deus faz em nós para nos assemelharmos a Cristo. Seja qual for a natureza do nosso sofrimento — uma decepção, uma frustração ou qualquer outra tragédia dolorosa —, precisamos tentar enxergá-lo à luz de Romanos 8:28-29. Romanos 8:28 diz que Deus está continuamente operando para o bem do seu povo, e Romanos 8:29 revela que o seu bom propósito é nos tornar semelhantes a Cristo.

Segunda: A assemelhação a Cristo e o desafio da evangelização. Provavelmente você já se perguntou: “Por que será que, até onde percebo, em muitas situações os nossos esforços evangelísticos freqüentemente terminam em fracasso?” As razões podem ser várias e não quero ser simplista, mas uma das razões principais é que nós não somos parecidos com o Cristo que anunciamos. John Poulton, que abordou o tema num livreto muito pertinente, intitulado A Today Sort of Evangelism, escreveu:

“A pregação mais eficaz provém daqueles que vivem conforme aquilo que dizem. Eles próprios são a mensagem. Os cristãos têm de ser semelhantes àquilo que falam. A comunicação acontece fundamentalmente a partir da pessoa, não de palavras ou idéias. É no mais íntimo das pessoas que a autenticidade se faz entender; o que agora se transmite com eficácia é, basicamente, a autenticidade pessoal”.

Isto é assemelhar-se à imagem de Cristo. Permitam-me dar outro exemplo. Havia um professor universitário hindu na Índia que, certa vez, identificando que um de seus alunos era cristão, disse-lhe: “Se vocês, cristãos, vivessem como Jesus Cristo viveu, a Índia estaria aos seus pés amanhã mesmo”. Eu penso que a Índia já estaria aos seus pés hoje mesmo se os cristãos vivessem como Jesus viveu. Oriundo do mundo islâmico, o Reverendo Iskandar Jadeed, árabe e ex-muçulmano, disse: “Se todos os cristãos fossem cristãos — isto é, semelhantes a Cristo —, hoje o islã não existiria mais”.

Isto me leva ao terceiro ponto: Assemelhação a Cristo e presença do Espírito Santo em nós. Nesta noite falei muito sobre assemelhação a Cristo, mas será que ela é alcançável? Por nossas próprias forças é evidente que não, mas Deus nos deu seu Santo Espírito para habitar em nós e nos transformar de dentro para fora. William Temple, que foi arcebispo na década de 40, costumava ilustrar este ponto falando sobre Shakespeare:

“Não adianta me darem uma peça como Hamlet ou O Rei Lear e me mandarem escrever algo semelhante. Shakespeare era capaz, eu não. Também não adianta me mostrarem uma vida como a de Jesus e me mandarem viver de igual modo. Jesus era capaz, eu não. Porém, se o gênio de Shakespeare pudesse entrar e viver em mim, então eu seria capaz de escrever peças como as dele. E se o Espírito Santo puder entrar e habitar em mim, então eu serei capaz de viver uma vida como a de Jesus”.

Para concluir, um breve resumo do que tentamos pensar juntos aqui hoje: O propósito de Deus é nos tornar semelhantes a Cristo. O modo como Deus nos torna conformes à imagem de Cristo é enchendo-nos do seu Espírito. Em outras palavras, a conclusão é de natureza trinitária, pois envolve o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
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Fonte do original em inglês:
http://www.langhampartnership.org/2007/08/06/john-stott-address-at-keswick/
Tradução: F. R. Castelo Branco Outubro 2007

Sábado, 15 de Março de 2008

Escatologia no Novo Testamento - Parte 1


Muitas pessoas parecem não saber, mas este mundo um dia chegará ao fim. Elas pensam que o mundo existirá por tempo indeterminado, devido ao fato que ele permanece da mesma maneira desde que o conhecem. Pessoas que pensam que o mundo só chegará ao fim se houver uma guerra nuclear, ai sim, a humanidade deixará de existir. Entretanto, independentemente dessas perspectivas, as pessoas sentem que o mundo simplesmente perpetuará sua existência.

Entretanto, a falta de segurança dos dias em que vivemos tem ascendido o interesse sobre o “fim dos tempos”. O discurso escatológico nasce justamente da insegurança do homem, aliada a realidade da morte como algo definitivo e comum a todos. Como conciliar, então, a bondade de Deus com a realidade da morte? Para enfrentarmos o fato real e irreversível da morte, ou amenizá-la, surge a escatologia. Desse modo, a morte está na base de toda é qualquer especulação escatológica.

Para onde vamos? O que podemos conhecer sobre o fim deste mundo? O que nos espera adiante?

Sendo a escatologia cristã a doutrina que trata do futuro e a parte da teologia que se preocupa com o estudo das últimas coisas que aconteceram ao homem e ao mundo, pode-se dizer que a escatologia também é uma tentativa de libertar o homem de tais preocupações, exprimindo convicções bíblicas de que a história humana está debaixo do controle soberano de Deus e que encontrará sua plenitude em Cristo. Portanto, a escatologia se vale do próprio enunciado bíblico para se desenvolver.

A escatologia pretende ser, não um anúncio que desperta medo e pavor, mas esperança e sonho de que um dia tudo será diferente daquilo que vemos e vivemos no mundo hoje. Seu propósito maior deve ser nos levar ao verdadeiro discipulado cristão que se desdobrará no temor e amor a Deus, sentimentos que lançam fora o medo.

Terça-feira, 11 de Março de 2008

Vida Cristã Além das Aparências - Parte 1


“E, vendo de longe uma figueira que tinha folhas, foi ver se nela acharia alguma coisa; e, chegando a ela, não achou senão folhas, porque não era tempo de figos. E Jesus, falando, disse à figueira: Nunca mais coma alguém fruto de ti. E os seus discípulos ouviram isto”(Mc 11.13,14).

Pelos relatos bíblicos, notamos que Jesus entrou no templo num dia de domingo, à tarde, e observou tudo ao seu redor. Logo depois, foi para Betânia, onde passou a noite, possivelmente na casa de Lázaro, irmão de Marta e Maria.

Os versículos de Marcos 11.12-26 mostram a maneira do evangelista, resumir tudo que Jesus fez durante o primeiro dia depois de Sua memorável entrada na cidade de Jerusalém.

Observemos que no versículo 12 diz “no dia seguinte”, insto é, seguinte ao dia em que entraram em Jerusalém – segunda-feira da última semana antes da Sua morte, Jesus teve fome. Jesus era é O Filho de Deus, mas também o Filho do Homem, sujeito às necessidades de natureza humana. Ele era tão dedicado ao trabalho do Pai a ponto de dizer que Sua comida e bebida era fazer a vontade de Deus. Mas o texto diz que o Mestre teve fome.

Eles estavam na região de Betfagé (v.1), que quer dizer “casa dos figos”, pois era um lugar em que se cultivavam figos; e, vendo uma figueira que tinha folhas, foi ver se nela acharia algum figo para comer. Porém, chegando a ela, não achou senão folhas, porque não era tempo de figos.

Em conseqüência disso o texto diz que Jesus amaldiçoou a figueira: “nunca mais coma alguém fruto de ti...” (v.14). Esta atitude de Jesus é singular em toda a Bíblia e tem suscitado algumas perguntas. Alguns ficam consternados com essa narrativa, pois vêem nesse episódio uma atitude subjetiva e inflexível de Jesus.

Por que Jesus amaldiçoou a figueira que não tinha produzido figos se o texto deixa bem claro que não era o tempo de figos? Afinal, por que Ele teve essa atitude implacável? Estaria Ele irado? Estaria Ele apenas exibindo seu poder?

O historiador Marcos (11.13) faz algumas observações interessantes.

Acompanhemos o relato. Passando pela estrada, Jesus observou “de longe uma figueira que tinha folhas”, e, ao presenciar as folhas, “foi ver se nela acharia alguma coisa”. Esse detalhe é importantíssimo, visto que, “quando ocorre a primeira maturação, as folhas ainda não estão completamente formadas (Ct 2.13)”. Mas ocorreu que “chegando a ela, não achou senão folhas”. Como havia folhas se ainda não havia acontecido a maturação? O fruto deveria preceder as folhas! Notemos que se trata de uma exceção. Não avistando frutos, Jesus lança uma sentença contra a figueira: “nunca mais alguém coma fruto de ti”. Mateus 21.19 encerra dizendo que “a figueira secou imediatamente”.

Apesar de ter uma abundância de folhas, “aquela figueira, entretanto, fora um ludíbrio”. Em outras palavras, aquela figueira evidenciava ser o que não era. Mostrava ser uma coisa quando, na realidade, era outra, isto é, fazia uma propaganda enganosa de si mesmo.

Vida Cristã Além das Aparências - Parte 2


“E, vendo de longe uma figueira que tinha folhas, foi ver se nela acharia alguma coisa; e, chegando a ela, não achou senão folhas, porque não era tempo de figos. E Jesus, falando, disse à figueira: Nunca mais coma alguém fruto de ti. E os seus discípulos ouviram isto”
(Mc 11.13,14).


Podemos extrair algumas lições desse episódio:


I. A FIGUEIRA SIMBOLIZA A SOCIEDADE E O ESTILO DE VIDA RELIGIOSA QUE JESUS ENCONTRA.

Gleason Archer observa que:

“pode muito bem ter acontecido que Jesus viu naquela figueira estéril que ele encontrara pelo caminho de Jerusalém, naquela segunda-feira de manhã, da semana santa, um lembrete vívido da falta de frutos em Israel, como nação de Deus. Por essa razão, usou aquela árvore como ilustração dramática de sua lição aos discípulos”.

Orlando Boyer diz que:

“a figueira viçosa, mas se figos, é notável emblema de Israel no tempo do ministério de Jesus. Israel era todo ostentação exterior; no templo, o sacerdócio, os ritos diários, as festas anuais, as Escrituras do Velho Testamento. Mas por baixo das ‘folhas bonitas’, a igreja judaica estava destituída de fruto. Não havia graça, nem fé, nem amor, nem poder, nem santidade, nem anelo de receber seu Messias”.

A figueira sem frutos representava o Israel infrutífero. O profeta Jeremias (cap. 24), utiliza os figos para representar o juízo sobre Jerusalém. A maldição foi lançada sobre a figueira, não só pela falta de frutos, mas, principalmente, por causa de sua aparência enganosa.


II. AS FOLHAS DA FIGUEIRA REPRESENTAM OS SINAIS EXTERNOS DA RELIGIÃO DE ISRAEL COMO MERO CERIMONIALISMO E FORMALISMO ESTÉRIEIS.

Na figueira, o fruto aparecia antes das folhas, portanto quando uma árvore dessas estava com toda a sua folhagem, muito naturalmente quem se aproximasse dela esperaria encontrar muitos frutos. Do mesmo modo, os judeus apresentavam perante o mundo um desempenho espiritual aparentemente frutífero, pois mostravam muitos sinais externos de sua religiosidade. Mas, tudo não passava de cerimonialismo e formalismo vazios, estérieis. Tinham aparência de vivos, mas estávamos mortos; aparência de ricos, mas eram pobres; aparência de frutíferos, mas eram estérieis. Tem folhas, porém não tem frutos.


III. A AUSÊNCIA DE FRUTO NA FIGUEIRA DENUNCIA A PROPAGANDA RELIGIOSA DA NAÇÃO CONSIDERADA “POVO DE DEUS” COMO UMA FRAUDE.

O fruto deveria preceder as folhas da figueira! Foi propaganda enganosa! Nem tudo que diz que é de Deus é verdadeiro. Muito do que temos visto não passa de folhas? Templos suntuosos, sermões eloqüentes, liturgia impecável, administração eclesiástica invejável, mas sem o fruto do Espírito Santo. Aparência de frutífera, mas sentenciada a secar até as raízes.

Vida Cristã Além das Aparências - Parte 3


APLICAÇÃO


I. Entre os evangélicos há muitos que professam uma fé promissora, porém sem fruto.


a) As pessoas envolvidas neles superam, em muito, tantas outras - Elas nos impressionam pela conversa, pelos modos. São eloqüentes na conversa, profundos na especulação teológica.


b) Tais pessoas parecem desafiar as estações do ano - A figueira produz os frutos antes das folhas. Certas pessoas parecem muito adiantadas em comparação com as pessoas ao seu redor, mas é só fachada, só aparência.


c) Tais pessoas ultrapassam a regra comum do crescimento - A regra primeiro figo, depois folha. Essas pessoas professam, proclamam o fruto, mas não o possuem.


d) Tais pessoas usualmente atraem a atenção dos outros - Segundo Mc 11.14 Nosso Senhor viu de longe essa árvore. As demais árvores ainda não tinham folha. Essa árvore era a única que estava em destaque. Essas pessoas não têm nenhuma modéstia, tocam trombetas e anunciam frutos que não possuem.


e) Tais pessoas não somente atraem o olhar, como também freqüentemente atraem o convívio de homens bons - Jesus e os discípulos foram até a figueira. Ela os atraiu. Existem pessoas que fascinam outras pela sua super-espiritualidade que alardeiam. Parecem ser piedosos, fervorosos, mas são só folhas.


II. Essas pessoas são alvo da inspeção do Senhor Jesus


a) Ele procurará fruto - Ele perscruta profundamente a nossa vida para ver se tem fruto, alguma fé genuína, algum amor verdadeiro, algum fervor na oração. Se ele não ver frutos não ficará satisfeito.


b) Jesus tem o direito de esperar fruto quando Ele vem procurá-lo - Ele tinha direito de encontrar fruto porque o fruto aparece primeiro, depois as folhas. Aquela árvore estava fazendo propaganda de algo que ela não possuía. Jesus tem encontrado fruto em você? Conforme João 15.8 o Pai é glorificado quando produzimos muito fruto e essa é a prova de que somos discípulos de Jesus.


c) Fruto é o que o Senhor deseja ardentemente - Jesus teve fome. Ele procurava fruto e não folhas. Ele não se satisfaz com folhas. Ele sente necessidade de sermos santos.


d) Quando Jesus se aproxima de uma alma Ele se aproxima com discernimento agudo - Dele não se zomba. A Ele não podemos enganar. Já pensei ser figo aquilo que não passava de folha. Mas Jesus não comete engano. Ele não julga segundo a aparência. Ele vai procurar entre as folhagens para ver se há fruto.


III. O Resultado da vinda de Cristo será terrível para quem fez uma profissão de fé fervente, mas sem fruto que comprove.


a) Onde deveria achar fruto, achou somente folhas - Se eu professo a fé sem a possuir não se trata de uma mentira? Se eu professo arrependimento sem tê-lo não é uma mentira? Se eu participo de ceia, mas estou em pecado e não amo aos meus irmãos não é isso uma mentira? A profissão de fé sem a graça divina é a pompa funerária de uma alma morta.


b) Jesus condenou a árvore infrutífera - Jesus não apenas a amaldiçoou, ela já era uma maldição. Ela não servia para o revigoramento de ninguém.


c) Ele pronunciou a sentença contra ela - A sentença foi fica como está, estéril, sem fruto. Continue sem a graça. Jesus dirá no dia final APARTAI-VOS para aqueles que viveram a vida toda apartados. Continue o imundo sendo imundo.


Conclusão


Podemos fazer um paralelo prático para compreender por que Jesus amaldiçoou a figueira. João 15.1-5 registra as seguintes palavras de Jesus:“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o lavrador. Toda a vara em mim, que não dá fruto, a tira; e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto. Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado. Estai em mim, e eu em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em mim. Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer”.


Quem está em Cristo dá muito fruto! E você, tem dado fruto?

Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2008

Como se Deus não existisse

por Ricardo Gondim

No século passado, Karl Marx e Sigmund Freud representavam duas grandes ameaças contra a religião. Marx afirmava que a igreja serve a interesses ideológicos de controle político e de subjugação econômica. Freud, por sua vez, percebia os mecanismos infantilizantes da religião quando sacerdotes projetam em Deus nosso desejo por um pai perfeito. Para ele, a prática religiosa condena homens e mulheres a viverem como eternas crianças, sempre precisando de intervenções sobrenaturais para enfrentar as agruras da vida.

É preciso dar a mão à palmatória. Os dois leram as instituições religiosas dos seus dias corretamente, principalmente a cristandade. Desde Constantino, o apelo do poder mostrou-se arrasador e irresistível nas igrejas. Infelizmente, os ensinos do Nazareno foram usados para autenticar o expansionismo imperialista e colonialista dos grandes impérios que se auto-proclamaram cristãos. Padres, pastores e bispos se vestiram como a grande prostituta do Apocalipse e se entregaram por qualquer preço. Monarcas beijaram anéis episcopais enquanto obrigavam seus donos a lamberem suas botas. Assim, os mercadejadores do templo precisaram distribuir ópio religioso para poderem fazer vista grossa e abençoar inúmeras carnificinas – dos Tsares russos ao Batista cubano; das aventuras ensandecidas de Isabel espanhola às dos Bush, pai e filho.

A adoração do “Deus provedor” ocidental deu razão a Freud, que denunciava os recintos religiosos como incubadoras de oligofrênicos. O proselitismo missionário foi feito, em grande parte, precisando de uma espiritualidade funcional. Na tentativa de mostrar a superioridade de Jeová sobre as demais divindades, criou-se um fascínio por milagres. “Nosso Deus funciona”, clamaram os evangelistas por séculos. Desse modo, o sobrenatural passou a ser compreendido como uma intervenção legitimadora daquele que é o verdadeiro “dono do pedaço”. Assim, os crentes viciados em milagres se condenaram à freudiana dependência infantil.

Em minha opinião, só seria possível resgatar a mensagem de Jesus Cristo, caso a religião abrisse mão de suas hierarquias institucionais, demitisse elites, democratizasse o acesso a Deus, e esvaziasse os rituais da função de serem técnicas para se obter bênçãos. É importante que repensemos a fé, seguindo o exemplo de Jesus que viveu sem precisar de milagres e morreu sem apelar para os anjos. Iguais a ele, precisamos viver sem os cabrestos da religião e sem as intervenções de Deus.

Concordo com John Hick em “Evil and the God of Love” (New York, Harper & Row; London, Mcmillan, 1966, p. 317)

“Ao criar pessoas finitas para amar e serem amadas por ele, Deus precisa dotá-las com certa autonomia relativa quanto a si mesmo”. Mas como pode uma criatura finita, dependente do Criador infinito quanto à sua própria existência e a cada poder e qualidade do seu ser, possuir qualquer autonomia significativa em relação a esse Criador? A única maneira que podemos imaginar é aquela sugerida pela nossa situação efetiva. Deus precisa colocar o homem à distância de si mesmo, de onde ele então pode vir voluntariamente a Deus. Mas como algo pode ser colocado à distância de alguém que é infinito e onipresente? É óbvio que a distância espacial não significa nada nesse caso. O tipo de distância entre Deus e o homem que criaria certo espaço para certo grau de autonomia humana é a distância epistêmica. Em outras palavras, a realidade e a presença de Deus não devem se impor ao homem de forma coercitiva como o ambiente natural se impõe à atenção deles. O mundo deve ser para os homens, pelo menos até certo ponto, etsi deus non daretur, “como se Deus não existisse”. Ele precisa ser cognoscível, mas apenas por um modo de conhecimento que implique uma resposta livre da parte do homem, consistindo essa resposta em uma atividade interpretativa não-compelida através da qual experimentamos o mundo como realidade que media a presença divina”.

Uma nova igreja precisa se desvincular de seu fascínio pelo poder, qualquer um: político, econômico, militar ou espiritual. Repito, urge que homens e mulheres construam sua humanidade, sendo sal da terra e luz do mundo, sem necessitar de repetidos socorros celestiais.

[Ricardo Gondim]

Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2008

O Pregador e a Pregação


Como se deve pregar? Vamos tentar uma resposta com base nas palavras do Pe. Antônio Vieira, "o gigante da oratória sacra" como é conhecido, em seu sermão intitulado "Sermão da Sexagésima", sermão este que foi pregado na Capela Real, em Lisboa, no ano de 1655, onde ele discorre sobre a missão do semeador da Palavra de Deus.



Levando em consideração que temos em demasia nos nossos púlpitos excelente pregadores, porém sem boas pregações - se é que isso é possível! -, eu peço permissão para parafrasear Vieira pretendendo responder a seguinte pergunta: O que o pregador deve fazer para que de fato desenvolva uma pregação relevante?

O pregador...


“Há-de tomar uma só matéria bíblica”, pois a pregação não é uma colcha de retalhos bíblicos;

“há-de defini-la, para que se conheça”, pois pregação que não se utiliza de explicação do texto é como mar sem águas;

“há-de dividi-la, para que se distinga”, pois torna mais clara a mensagem;

"há-de prová-la com a Escritura”, um texto testifica de outro texto;
“há-de declará-la com a razão”, eloquência sem lógica no raciocínio gera confusão;

“há-de confirmá-la com o exemplo” a i-lus-tração traz "luz" para clarear as mentes;

“há-de amplificá-la com as causas, com os efeitos, com as circunstâncias, com as conveniências que se hão-de seguir, com os inconvenientes que se devem evitar”;

“há-de responder às dúvidas”, e daí?, o que isso tem a ver com o ouvinte contemporâneo?;

“há-de satisfazer às dificuldades”;

“há-de impugnar e refutar com toda a força da eloquência os argumentos contrários”; e depois disto,

“há-de colher, há-de apertar, há-de concluir, há-de persuadir, há-de acabar”.



Isto é sermão, isto é pregar; e tudo o que passa disto, são apenas falácias de um lugar mais alto.



Graça e Paz,


Filipe.

Lança o teu pão sobre as águas

A Bíblia NVI diz: “Atire o seu pão sobre as águas a, e depois de muitos dias você tornará a encontrá-lo”.

A Bíblia Pastoral diz: "Jogue seu pão sobre a aguá, porque dias depois você o encontrará".

Mas o que esse texto quer nos ensinar dentro da prática da espiritualidade cristã? Esse texto ensina que na vida é preciso ser prudente, mas também precisamos arriscar. Como só Deus conhece o mistério da vida, o discernimento ajuda pelo menos a tatear, a fim de descobrirmos o que fazer no lugar e momento certos.

A referência aqui pode ser ao costume egípicio de espalhar sementes ou grãos usados na panificação sobre as águas que inundavam suas terras quando o Rio Nilo transbordava. Parece que os grãos ficavam soterrados e esquecidos, mas depois de algum tempo surgia a colheita. Essa metáfora fala de prudência e risco.

É preciso ter coragem e fé para arriscar diante daquilo que não vemos instantaneamente!


Deus abençoe,

Filipe.

Sábado, 15 de Dezembro de 2007

O Maior dom do Evangelho, Deus!


Qual é o maior benefício do evangelho? O melhor e mais importante dom do evangelho é ganharmos a Cristo. É recebermos o dom do amor de Deus, benefício que envolve todo nosso ser e o recebemos por meio do evangelho. Esse é o verdadeiro benefício: ver e experimentar o amor de Deus em Cristo para sempre.

Entretanto, em lugar disto, temos transformado o amor de Deus e o evangelho de Cristo em uma aprovação divina de nosso deleite em coisas menos importantes. As verdadeiras bênçãos do Evangelho não podem ser desfrutadas por quem não tenha o Senhor mesmo como a maior dádiva do evangelho.

O Evangelho não é outra coisa senão as boas-novas de nosso gozo completo e final em Deus na pessoa de Cristo Jesus o Seu Filho. O supremo, o melhor, o final e decisivo bem que recebemos do Evangelho é o próprio Deus.

Você seria feliz no céu, se Cristo não estivesse lá? Imagine o céu, sem doenças, sem dor, sem morte, ao lado de todos aqueles amigos que partiram antes de nós e que tínhamos aqui, o céu com ruas de ouro, todas as belezas naturais que já contemplou, todos os prazeres físicos que já experimentou, com todas as atividades relaxantes que já desfrutou, nenhum conflito humano ou desastres naturais, com banquetes com toda a espécie de comida que você gosta, você ficaria satisfeito com o céu, se Cristo não estivesse lá?

Um abraço,

Filipe

Quinta-feira, 23 de Agosto de 2007

O Deus que ama pecadores - Parte II


Eu vejo o Evangelho da graça de Deus revelado na conversão de Mateus (Mt. 9.9-13). Jesus estava caminhando quando, derrepente, viu um cobrador de impostos chamado Levi ou Mateus, sentando no guichê dos impostos eram recolhidos por roma dos judeus. Jesus se aproximou dele e lhe disse: “Venha comigo”. E, simplesmente sem relutar, Mateus se levantou e seguiu Jesus.

Mais tarde, Mateus preparou um jantar evangelístico em sua casa para apresentar Jesus aos seus amigos e, quem sabe, se despedir da antiga profissão. Muitos cobradores de impostos e outras pessoas de má fama chegaram e sentaram-se à mesa com Jesus e os seus discípulos. Enquanto comiam, alguns fariseus vendo aquela festa, e que Jesus estava no meio de grandes pecadores, perguntaram aos discípulos de Jesus:
– Por que é que o mestre de vocês come com os cobradores de impostos e com outras pessoas de má fama?
Jesus ouviu a pergunta dos fariseus e ele próprio respondeu:
– Os que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. Vão e procurem entender o que quer dizer o trecho das Escrituras Sagradas que diz: “Eu quero que as pessoas sejam bondosas e não que me ofereçam sacrifícios de animais.” Porque eu vim para chamar os pecadores e não os bons.

Espere aí; aqui está uma revelação mais fulgurante que o sol, mais intensa que o brilho das estrelas: Jesus veio para os pecadores, para pessoas como Mateus, marginalizadas pelos religiosos por ser cobrador de impostos. Foi o próprio Jesus quem disse que não veio para bons. Jesus vem para executivos, sem-teto, celebridades, caipiras, pescadores, fazendeiros, empresários, prostitutas, viciados, soropositivos, homossexuais e até políticos corruptos. São eles os alvos de Jesus.

Jesus sentou com gente dessa laia. Não foi um repelente religioso que afastou pecadores, pelo contrário, alguém que demonstrou amor e interesse em atrair pessoas dilaceradas pelo pecado. Ele, não só sentou com esse tipo de gente, mas comungou de refeição com eles mesmo sabendo que isso faria levantar as sobrancelhas dos fariseus e religiosos - estes que ostentavam seus parâmetros de justiça própria - mesmo sabendo que mais tarde seria condenado por agir e sustentar essa prática com seus ensimamentos.

Me faz lembrar de um um e-mail que recebi de um amigo com o vídeo de um televangelista renomado. No vídeo ele falava de um famoso grupo de louvor que recentemente vivenciou um problema com seu líder que culminou no afastamento do grupo de sua igreja de origem. E, o mais interessante, é que a mensagem veio à tona para mim no momento em que preparava este texto, o veio a calhar, por tratar de como agimos com nossos irmãos. Não quero entrar nos méritos de quem está ou não com a razão, mas apenas comentar o vídeo que vi, e sobre o qual tenho minhas reservas em aceitar tal postura pastoral.

Depois de ver atentamente o vídeo, comentei com meu amigo que o pastor não tinha o direito de agir daquela maneira. Disse também, que minha posição sobre o fato estava pautada no ensinamento de Jesus sobre o perdão e no ensino de Paulo sobre a graça.

Lembrei-lhe que as palavras de Jesus me mandam perdoar 70 vezes 7 quem comete erros comigo. Jesus não chamou pessoas perfeita para nenhum tipo de ministério, veio para pessoas imperfeitas, veio para pecadores como Mateus, Maria Madalena, Paulo e todos quantos são chamados cristãos, inclusive, eu e ele também.

Disse também que esse pregador recorre ao tempo da Lei para fundamentar sua tese o que é típico de pregadores temáticos como ele que para fundamentarem o que querem falar usam diversos textos fora de seus respectivos contextos, e na maioria das vezes textos do período da Lei.

Concluindo, disse ao meu amigo que devemos recuperar e exercer a Graça de Deus no seio da igreja atual e aniquilarmos do nosso meio o falso evangelho da justiça humana que barganha com Deus através de sua religiosidade barata. Esse evangelho que mete medo, ameaça, mostra Deus como um juiz severo, não é o Evangelho do Novo Testamento e de Jesus. Se a graça não alcançar o homem, seja ele quem for, estará perdido para sempre e destinado ao fogo do inferno.

O mundo tem sede de graça. Para essa sociedade que parece estar a deriva, sem amarrar, não conheço um lugar melhor para que lance sua âncora. O problema é quando, estranhamente, descobrimos que há falta de graça dentro da igreja. Um lugar de sempre foi considerado um hospital espiritual, está matando os doentes. Um organismo e uma organização fundada para trazer alívio, está expulsando os pecadores.

O que o muno fica sabendo a respeito de Jesus quando nos observa? O que os homens aprendem sobre Deus quando olha para dentro de nossas paredes?
Agente precisa demonstrar graça a estes que vivem um desgraceira de vida!

O que Jesus viu em Mateus, nada! Nada havia nela que o fizesse ser salvo. Mas o que Mateus viu em Jesus? Viu amor, graça, perdão, misericórdia e a salvação.

Está aí o que o mundo precisa ver na Igreja!

Um abraço,
Luís Filipe

O Deus que ama pecadores - Parte I


A igreja evangélica de nossos dias a aceita a graça de Deus na teoria, mas nega-a na sua prática religiosa. Diversas pessoas têm visto a igreja institucional como uma casa de temor e terror e não uma casa de amor. Isso porque a nossa cultura tornou o conceito de graça algo impossível de ser compreendido e muito menos alcançado.

Quantas vezes você já falou para seus filhos a seguinte frase: “Deus ama as crianças boazinhas”? Quantos sermões você já ouviu com ênfase na justiça própria e no esforço pessoal? Nossa espiritualidade ao invés de ter início em Deus e na ação do Espírito Santo de Deus em nós, ela começa no “eu tenho que fazer alguma coisa para agradar a Deus”. Aquilo que deveria ser o fruto do Espírito em nós, transformou-se em algo de nossa inteira responsabilidade. Falamos sobre adquirir virtudes como se fossem habilidades inatas em nós, que precisam de desenvolvimento, como andar, falar, escrever, etc.

De fato, não sabemos o que realmente significa graça, talvez o saibamos conceitualmente, mas não na prática. O Evangelho da Garça causa um choque nos religiosos de plantão e escândalo para quem não tem noção da sua profundidade. Foi isso que atormentou Martinho Lutero e se desencadeou na Reforma Protestante no século XVI.

A Reforma só veio à tona porque um dia Lutero orou sobre o significado das palavras de Paulo aos romanos 1.17: “Porque no evangelho é revelada a justiça de Deus, uma justiça que do princípio ao fim é pela fé e, como está escrito: “O justo viverá pela fé”. Como muitos cristãos dos nossos dias, Lutero não conseguia entender uma questão fundamental do Evangelho de Cristo: de que forma a mensagem cristã podia ser chamada de “Boas Novas” sendo Deus um juiz justo que trata os bons com bondade e pune os perversos com castigo? Será que Jesus veio essa terrível mensagem? Como a revelação do evangelho podia ser chamada de “Boa Nova”, haja vista que era assim a mensagem do Antigo Testamento, a mensagem da Lei, a mensagem da retribuição, da ameaça de punição aos pecadores.

Depois de muita crise existencial, Lutero chegou à percepção verdadeira e afirmou que os próprios portões do Paraíso tinham sido abertos pra ele. Ele compreendeu que Paulo falava de uma justiça pela qual, pelo sacrifício de Cristo, Deus tornou justos pecadores pelo perdão dos pecados na justificação do sangue de Jesus. Que verdade maravilhosa! É a justiça pela graça mediante a fé. E a afirmação da central da Reforma permanece: não por qualquer mérito nosso, mas pela sua bondade, tivemos nosso relacionamento restaurado com Deus através da vida, da morte e da ressurreição do seu amado Filho. Essa é a verdadeira mensagem do Evangelho: a boa nova da graça de Deus revelada em Jesus.

Um abraço,
Luís Filipe

Terça-feira, 21 de Agosto de 2007

Somos íntegros porque andamos com Deus ou andamos com Deus porque somos íntegros?





Li recentemente uma afirmação que precisa ser analisada com calma e pelo escrutínio da razão e de lógica. A afirmação foi que “Noé era íntegro porque andava com Deus, e andava com Deus porque era íntegro”. Então eu pensei e pesei tal afirmação na balança bíblica e raciocinei logicamente sobre ela para ver se era legítima.

São duas afirmações completamente distintas; analise comigo. A primeira é: “Noé era íntegro porque andava com Deus”. A outra por sua vez diz: “Noé andava com Deus por que era íntegro”. Percebe-se uma enorme distinção aqui, o que chega as raias da contradição entre si. Na verdade são antagônicas se formos julgá-las biblicamente.

Na primeira afirmação, “Noé era íntegro porque andava com Deus”, a integridade depende do andar com Deus, isto é, a integridade como resultado da companhia do Deus Justo. Logo, podemos atribuir a Ele todo o mérito de nossa vida íntegra.

Já a segunda afirmação, “Noé andava com Deus porque era íntegro”, deixa subentendido que foi a integridade de Noé uma espécie de passe livre para a caminhada com Deus. Logo, o ser íntegro de Noé vem antes do andar com Deus, não dependendo da ação do Senhor e nem do resultado de Sua justa e santa companhia. A integridade é atribuída a Noé, independentemente de Deus, como prêmio de seus méritos.

A diferença é que na primeira, a integridade de Noé vem de Deus por imputação, e na segunda, a integridade é virtude humana de Noé. Bem, eu acredito, segundo a Bíblia Sagrada, que todo homem depois de Adão, está totalmente depravado e incapaz de exercer qualquer tipo de bondade e justiça que agrade a Deus. Em Filipenses 2.13 está escrito: “porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade”. Em outras palavras, nós dependemos única e exclusivamente de Deus para termos uma vida íntegra diante Dele e não dos nossos esforços.

Antes de exigirmos dos outros e até de nós mesmos o versículo de texto áureo desta lição, Filipenses 2.15 que diz: “Para que sejais irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio duma geração corrompida e perversa, entre a qual resplandeceis como astros no mundo", temos que aceitar a verdade do versículo 13, é Deus que opera em nós tudo isso!

"Um santo não é alguém bom, mas alguém que experimenta a bondade de Deus"
Thomas Merton

Se alguém não se convenceu dessa verdade ainda, precisa ler o que hebreus 11.7 diz: “Pela fé, Noé, divinamente avisado das coisas que ainda não se viam, temeu, e, para salvação da sua família, preparou a arca, pela qual condenou o mundo, e foi feito herdeiro da justiça que é segundo a fé”.

Noé teve fé em Deus porque ele foi avisado pelo Próprio Deus de que viria o dilúvio sobre a terra. Por essa razão temeu e preparou a arca para a salvação segundo a palavra de Deus. Feito tudo isso, herdou a justiça segundo a fé que foi plantada por Deus em seu coração pelo aviso.

Deus abençoe,

Luís Filipe

Sexta-feira, 10 de Agosto de 2007

A ovelha, o Pastor e a ansiedade - Salmo 23.1

Este salmo talvez seja o mais bem conhecido exemplo de um salmo de confiança em Deus. Trata-se de uma unidade literária com duas grandes metáforas dominantes que expressam os cuidados e a bondade de Deus: o pastor e a mesa do banquete.

A imagem de Deus como um pastor é inesgotavelmente rica e profunda. O pastor permanece com seu rebanho (Is 40.11; 63.9-12); suas ovelhas dependem totalmente dele quanto ao alimento, à água e à proteção de animais ferozes.

No Novo Testamento, Jesus se revela como o pastor de seu povo (Jo 10.11,14), cumprindo a profecia de que Deus viria para pastorear o seu povo (Ez 34.7-16,23).

A segurança junto a Deus se expressa com a imagem da ovelha cuidada pelo pastor. Junto a Deus, a pessoa adquire forças para enfrentar as situações mais adversas

“O SENHOR É O MEU PASTOR E NADA ME FALTARÁ”

Eu encontro três grandes declarações neste salmo.

Primeira, a declaração acerca do caráter de Deus: Ele é pastor.

Como pastor Deus cuida do rebanho, e com seu braço o reúne; leva os cordeirinhos no colo e guia mansamente as ovelhas que amamentam (Isaías 40.11).

O pastor ensina, dirige e conduz o rebanho;
O pastor cuida, guarda e protege o rebanho;
O pastor limpa o rebanho;
O pastor conta e conhece suas ovelhas (Jo 10.14);
O pastor salva a ovelha da boca dos leões e dos lobos;
O pastor se preocupa com suas ovelhas;

Em João 10.11, Jesus diz que é o Bom Pastor e o Bom Pastor dá a vida pela suas ovelhas. Em Hebreus 13.20 diz que Jesus é o Supremo Pastor das ovelhas (p.p 1Pe 5.4).


Segunda, a declaração do salmista acerca de si mesmo: Eu sou ovelha.

O que o salmista quiz dizer com isso? A ovelha é totalmente dependente do seu pastor. Em João 15.5c diz: pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma. Do mesmo modo, as ovelhas conhecem a voz de o barulho que seu pastor produz.

Ovelhas sem pastor se espalham e dispersam;
Ovelhas sem pastor estão completamente perdidas;
Ovelhas não têm senso de direção, não sabem ler mapas;
As ovelhas não são auto-suficientes;
A ovelha não pode perder a memória da voz do seu pastor;


Terceira, a declaração de ausência de ansiedade e suficiência no Pastor: Nada me faltará, porque o Senhor é o meu pastor.

A ansiedade põe em questionamento o caráter de Deus. Uma ovelha ansiosa, pensa da seguinte maneira: será que Deus é o que a Bíblia diz que ele é: Pastor?

A segurança junto a Deus se expressa com a imagem da ovelha cuidada pelo pastor. Junto a Deus, a pessoa adquire forças para enfrentar as situações mais adversas da vida.

SERÁ QUE O SENHOR TEM SIDO SEU PASTOR? SERÁ QUE VOCÊ TEM SIDO OVELHA? VOCÊ TEM VIVIDO UMA VIDA DE ANSIEDADE? COMO VAI SUA CONFIANÇA EM DEUS ABALADA?

Faça sua as palavra de Davi: “O SENHOR É O MEU PASTOR E NADA ME FALTARÁ”!

Um abraço,

Luís Filipe